Tag: stop motion

04
nov

Uma visita ao artista plástico Atsuo Nakagawa.

Há alguns meses atrás, descobri o trabalho do Atsuo Nakagawa e resolvi entrevistá-lo. Após conseguir seu e-mail com uma amiga e enviar uma mensagem, foram várias semanas até que o nosso encontro acontecesse. Às vezes as respostas vinham só com uma frase, outras vezes com informações que não pareciam dialogar com o e-mail anterior. Entre uma mensagem e outra, por vezes transcorriam alguns dias até que eu recebesse algo. Um pouco inusitado para quem está acostumado, como eu, a reponder a e-mails imediatamente. Mas o quebra cabeças foi sendo montado aos poucos, e quando a porta da quitinete no Copan se abriu e finalmente me encontrei com ele, tudo fez sentido.
Acompanhado de uma amiga, que fez as vezes de tradutora durante a nossa conversa, ele me explicou que ainda não domina muito bem o Português e que não tem conexão de internet em casa. Para acessar o e-mail, só descendo ao térreo do edifício onde existe uma Lan House. E isso ele não faz todo dia.
Atsuo vive no Brasil faz apenas três anos. Primeiro morou no Bairro São Joaquim, mas logo se instalou em uma quitinete no Copan, de onde não saiu mais. É um espaço pequeno e ligeiramente caótico onde o centro de tudo é a sua mesa de trabalho forrada de estatuetas, material de desenho e toy arts. Tem até um boneco do Dollynho.
Hoje em dia é raro encontrar pessoas ‘analógicas’, que produzem todo o seu trabalho manualmente e que usam o computador apenas para trocar e-mails. Talvez seja por isso que ‘procrastinação’, essa palavra tão em uso, parece não existir no vocabulário dele. Ali, cercado de trabalhos empilhados por todos os lados, colados nas paredes e nos vidros e até encostados ainda embalados nas paredes, é que Atsuo passa a maior parte do seu tempo, produzindo incessantemente. Ele pode fazer um desenho em um minuto, como me mostrou, ou levar dias para terminar uma de suas pinturas feitas nos suportes mais variados. Mas, vestido com um macacão de mecânico, ele parece estar sempre focado no seu ofício, que é produzir arte. Às vezes ele sai, é verdade, mas para trabalhar, colocando sua arte em paredes ou muros sob encomenda.
Atuso nasceu e viveu em Kyoto até três anos atrás, quando veio morar definitivamente no Brasil. Seu pai é técnico em raiosx e sua mãe trabalhou pintando quimonos. Desde pequeno ele mostrou interesse por desenho e por filmes de monstro, que ia assistir no cinema levado pela mãe. Um dos seus maiores ídolos até hoje é Ray Harryhausen, o gênio Americano do Stop Motion. Os filmes dele que Atsuo viu na infância, como ‘Simbad contra o olho do tigre’ e ‘Jason e os Argonautas’, são grandes influências no seu trabalho até hoje. Isso porque eles juntam duas das coisas que ele mais gosta: monstros e esculturas.
Incentivado pelos pais, ele estudou artes plásticas. Na faculdade conheceu Yumi Takatsuka, que depois se casaria com o artista Brasileiro Titi Freak. Terminando a faculdade, trabalhou durante vários anos em uma empresa que produzia objetos para a Universal Studios e depois em outra onde esculpia manequins de moda. Conciliava o trabalho diário com sua produção artística, feita à noite e nas horas vagas. Ao conhecer seu trabalho, Titi Freak o incentivou a participar de uma exposição coletiva em São Paulo. Relutante, mesmo estando com muito trabalho na empresa onde esculpia os manequins, resolveu aceitar. Foi assim que participou da coletiva Himegoto, na Galeria Choque Cultural, que homenageou em 2006 o centenário da imigração Japonesa no Brasil.
Para a montagem e inauguração da exposição, conseguiu uma licença especial para ficar por um mês e meio no Brasil. Seus superiores eram rígidos mas o incentivaram. Até então não sabia quase nada sobre o país, pois segundo ele não chegam muitas informações no Japão sobre nós além do futebol, do samba e das lutas de vale tudo.
Quando chegou em São Paulo, se sentiu tão bem que começou a pensar em morar aqui. Diz até que se sentiu melhor aqui que no Japão. Mas foram cinco anos até tomar definitivamente a decisão, três anos atrás. Ao desembarcar, em Setembro de 2011, fez uma exposição individual na Choque Cultural chamada “Eu sou o Lobo”, onde mostrou 45 obras do seu acervo.
Desde sua chegada tem se dedicado também ao grafite, algo que não fazia no Japão porque lá as leis são bem mais restritivas e ele diz que tinha um pouco de medo de ser preso. Já fez intervenções na nova sede do restaurante Bueno, na Alameda Santos e nos muros de um salão de beleza e de um albergue na Vila Madalena. Na sua arte agora é possível perceber mais referências ao japão tradicional, através da presença de monstros, carpas e dragões se misturando ao seu repertório de referências modernas.
Durante 2013 foi patrocinado pela Onituska Tiger e produziu obras em suportes variados, desde pinturas em acrílico até gravuras e esculturas em pelúcia. Expôs estes trabalhos na Galeria Homegrown, no Rio de Janeiro.
Atualmente Atsuo não tem acordo com uma galeria específica, mas diz que a divulgação de seu trabalho exclusivamente pelo Facebook e pelo Twitter tem trazido muitos clientes. É nesses canais que ele posta, além das suas criações, imagens incríveis que mostram seu gosto variado pelo pop e por composições inusitadas.

Trilha sonora do vídeo dos arquivos da Shuttesrstock: Wild Joke, de Saint of The Echo

Para ver mais: Site do Atsuo Instagram do Atsuo Créditos: Entrevista: Eduardo Foresti – Foresti Design Fotos: Fernanda Motta, Eduardo Foresti e Divulgação Video: Eduardo Foresti Fonte: Shutterstock